
Ela sempre sonhou com o homem dos seus sonhos. Cabelos, pele, olhos, tom de voz... Tudo. Imaginava até como seria seu primeiro encontro com ele, embora soubesse que talvez, fosse impossível. Ainda assim, não desistia, não perdia a esperança de um dia encontrá-lo.
Quando saía com os amigos, quando comia ou dormia, pensava nele todo tempo; o que estaria fazendo, se estava triste ou alegre ou se realmente poderia existir alguém como imaginava.
Dias, meses, anos... Se passavam numa velocidade quase imperceptível. Alguns de seus amigos se casaram, tiveram filhos... outros, morreram. Ela continuava na mesma. Sua esperança cada vez mais forte, assim como a ansiedade. Via o tempo passar e seu amor não chegar... Não podia ser qualquer homem, não podia ser qualquer amor. Tinha que ser aquele que ela havia imaginado. Contudo, seu vigor para procurá-lo já não era mais o mesmo. Ainda era bonita e com certa mocidade, mas não com o mesmo ar jovial. Começava a se cansar de tudo: dos velhos amigos, dos relacionamentos baseados em sexo, do vazio que sentia. Mas, nunca desistiu.
Escrevia cartas imaginárias para ele em seu diário. Na verdade, era um meio de driblar a solidão que sentia, um meio de desabafar...
Decidiu viajar. Seria bom sair da cidade grande. Escolheu uma cidadezinha muito charmosa, no interior do estado, onde poderia descansar.
Conheceu pessoas e lugares novos, se divertiu... Mas, ainda se sentia exausta. Pensava que poderia encontrá-lo a qualquer minuto, em qualquer lugar. Todo homem que via, de acordo com descrições dele, chamavam-lhe a atenção, dando-lhe falsas esperanças.
Cansou disso tudo e decidiu que já era hora de parar. Não podia passar o resto de sua vida idealizando, esperando alguém que coubesse em sua fantasia. Não era justo com outros que poderiam gostar dela, não era justo consigo mesma. Voltou para casa... Arrasada.
Durante a viagem de volta, escreveu no diário e adormeceu. Quando acordou, o ônibus já havia chegado em seu destino e se preparava para a próxima viagem. Levantou-se depressa e nem notou que seu bem mais precioso havia caído.
O ônibus partiu. Rodou por vários lugares, até que o objeto foi achado. Achado e jogado fora.
Um mendigo, revirando os latões de lixo da cidade, o achou. Leu. Sentiu que aquela dor era dele. Aquelas palavras eram suas! A mulher que o escrevera era a parte que lhe faltava na alma. Ele a procurava e a desejava por muito tempo; tanto tempo, que a mendicância era um estado causado pela espera daquele amor. Decidiu procurá-la, o que foi, de certo modo, fácil, já que havia um telefone escrito na contra-capa.
Ela não se perdoava por ter perdido suas anotações. Estava triste e decepcionada consigo mesma. Aquilo não poderia ter acontecido, eram relatos de uma vida, de um sonho. Seu sonho! E agora estavam perdidos. Não adiantava mais... Talvez o destino o quisera assim, para que ela crescesse e encarasse o mundo real. Para aliviar, começou a beber e assim foi até que adormecesse profundamente, entre garrafas e lágrimas...
Ele anda. Anda com fé. Fé de quem achou o que tanto procurava. Fé de quem encontrou a salvação. Foi até o depósito de reciclagem, onde trocaria todo o entulho de papelão e jornal por uma gorda esmola. Apesar disso, não reclamou como fazia nas outras vezes. Sabia que aquele dinheiro não precisaria mais ser gasto com o consolo dos miseráveis, a cachaça. Comprou um cartão telefônico.
O telefone toca. O som é captado por seu ouvido como uma agulha quente entrando no cérebro. Sua cabeça pesa uma tonelada e, apesar do corpo oferecer certa resistência, ela se levanta e o atende.
Do outro lado, uma voz rouca e desanimada responde. Seu coração parece querer sair pela boca. A expectativa é tanta, que ele gagueja e acaba perdendo a voz. Não consegue falar absolutamente nada. Ela, irritada, fala um “vai se fuder” e desliga. Repentinamente, seu estômago se revira e ela corre até o banheiro. Vomita. Ele, nervoso, também passa mal e vomita.
“Covarde! Por que não tive coragem de falar com ela? Talvez seja melhor assim, eu não sou ninguém. Não! Eu não posso desistir agora! Estou tão perto... !”
Ainda no banheiro, ela tenta se recuperar tomando um banho. Novamente, o telefone. “Ah, deixa pra lá. Deve ser o mesmo idiota de antes...”
Desta vez, uma voz metálica atende. Ainda nervoso, ele sussurra as primeiras palavras e, com muita luta consegue deixar um recado: “Oi. Achei seu diário. Quando puder, ligue para esse número...” Ela termina o banho, se arruma e sai de casa, sem verificar mensagem deixada.
Ele se agarra ao único fio de esperança que tem. Se apega àquele telefone público como se sua vida dependesse daquilo. Disposto a enfrentar todos os obstáculos, decide passar dia e noite lá, esperando sua salvação, o retorno dela...
Dias se passam sem que ela ligue, mas ele não desiste. “Ela vai ligar, ela vai ligar, eu sei!” E deixava vários recados. Sua convicção era tamanha, que não deixava ninguém se aproximar. O que teria acontecido com ela? Por que não ligou de volta? Será que estava doente? Será que morreu? Não, não estava doente e nem havia morrido. Apenas se esqueceu de verificar a secretária eletrônica. Pra ela, um esquecimento breve, normal... Pra ele, uma tortura sem fim. Ambos compartilhavam da mesma solidão. Ambos compartilhavam da mesma angústia.
Ele já não catava o lixo de sempre, não comia e nem dormia. Estava ficando doente e fraco, quase perdendo a fé. Ela também não fazia mais nada a não ser beber. Estava virando uma alcoólatra.
Entre um porre e outro, ela saía para comprar mais e mais garrafas. Aproveitava também para respirar um pouco de ar puro, mas já não ligava se seu amor estaria na próxima esquina ou não, na verdade, aprendera a conviver sem ilusões...
- Moça, por favor... preciso de ajuda!- Falou um mendigo. Não era de se sensibilizar com aquilo, afinal de contas, o mundo inteiro precisava de ajuda, inclusive ela. Mas, algo naquele pedido a tocou.
- Não vou te dar dinheiro e nem minha bebida, mas posso te pagar um almoço.
-Não, moça ! Não quero seu dinheiro e nem sua bebida. Preciso que me faça um favor. Preciso que ligue para esse número e diga para a pessoa que atender que eu achei algo muito importante . É urgente ! Sinto que não vou durar muito tempo...
Nunca havia conhecido alguém tão afoito para devolver coisa alguma. De fato, nunca tinha visto ninguém devolver nada, sendo estranho ou não. Vendo que aquilo era importante pra ele, ligou. Reconheceu a pessoa do outro lado e não completou a chamada.
Sentiu uma súbita gratidão por ele e o convidou para ir até sua casa. Um tanto desconfiado, deixou-se vencer pela fraqueza e aceitou o convite.
Chegando, ela lhe deu roupas esquecidas de algum amigo e também um barbeador. Enquanto ele se limpava, ela cozinhava; algo não muito habitual.
No banheiro, ele se olhava no espelho. Percebeu o quanto as marcas do sofrimento lhe envelheceram. Respirou fundo e agradeceu á Deus pela ajuda dela. Não entendia a razão daquele ato tão generoso. Geralmente, as pessoas o viam como um farrapo humano, um resto de gente. Passavam por ele como quem passa por um monte de bosta e só paravam para reclamar de seu cheiro ou do espaço que ocupava na calçada.
Ligou o chuveiro e deixou a água cair sobre seu corpo. Haviam muitos anos desde que tomara um banho, ainda mais, um banho quente. Esfregou-se com bastante sabonete. Não apenas para tirar a sujeira do corpo, mas também para limpar o espírito.
A comida estava pronta. Um cheiro delicioso circulava por toda casa. Estranhamente, ela confiava nele. Um homem que se esforçara daquele jeito apenas para devolver-lhe algo, merecia uma certa dose de confiança ou pelo menos, compaixão. Não se importou com sua demora no banho, percebeu que ele realmente precisava daquele tempo. Decidiu que o conheceria melhor, mas não contaria que o diário era seu.
Terminado o banho, desligou o chuveiro, fez a barba e cortou as unhas. Ela havia lhe dado uma escova de dentes também. Embora não fizesse sentido escová-los porque certamente, ela lhe ofereceria algo para comer, mas ele o fez assim mesmo. Vestiu-se. As roupas tinham uma maciez e um perfume que ele nunca havia sentido antes. Olhou-se novamente no espelho. Havia esquecido de como era seu verdadeiro rosto. Ficou chocado com o que viu e quase não se reconheceu.
Quando o viu, levou um susto. Teve uma sensação de deja viù. Pensou que já tinha o visto antes, mas não se lembrava de onde. Viu que debaixo de toda aquela sujeira e pêlos, havia um homem lindo. Não era lindo interior ou exteriormente falando. Não era lindo só por ser ou dizer, mas era lindo simetricamente, como se alguém o tivesse desenhado e moldado seu rosto e seu coração. Olhos, nariz e boca perfeitos, além de uma ternura e sensibilidade extremas, tanto no falar, quanto no agir!
Um pouco constrangido, ele lhe agradeceu pela gentileza e antes que se sentasse á mesa, perguntou-lhe se poderia telefonar. Ela respondeu que sim, e lhe deu o celular. Vendo que ele não estava habituado àquele tipo de aparelho, o ajudou. O telefone de sua casa toca. Ela não atende e deixa por conta da secretária eletrônica.
Ouviu o som da voz dela e, em seguida, sua própria voz. Ele se espanta, o celular cai. Começa a entender. Os dois se olham. Explicações eram desnecessárias. Ele sabia quem era ela. Deu alguns passos em sua direção e lhe entregou o objeto. Uma lágrima caiu de seus olhos. Ela abriu uma das páginas e o reconheceu. Era ele: o homem dos seus sonhos! O homem perfeito, que ela sempre imaginou.
Fascinados um pelo outro, se acariciaram, como se não pudessem acreditar que aquele encontro era real. Abraçaram-se, choraram... Contaram a longa e dolorosa viagem que fizeram até se encontrarem. Um via no outro a sua metade, sua morte e seu renascimento, sua salvação e sua rendição. Se amaram como se não fosse possível e assim permeneceram...