segunda-feira, 5 de maio de 2008

Mosquitos e baratas!


Peguei dengue. Do pior tipo, daquele que ferra a gente e até mata. Fui parar no hospital umas duas vezes, na segunda, me internei. Como maioria da população carioca, fiquei num hospital público... que merda! Em meio aos gritos, discussões e choros de dor, estava eu, num leito sem colchão, coberta apenas por um lençol fino e pequeno, que mal cobria meu corpo. Até aí, nada demais. Suportei. Suportei do modo mais egoísta, pensando apenas em alguma coisa que me servisse de material pra escrever. Porém, não sabia que teria tanto e que pagaria um preço altíssimo por isso. Fiquei na enfermaria, com mais ou menos quinze pessoas, que como eu, sofriam com a doença de “César, o Maia”. Não que eu o culpe (totalmente), até porque, a culpa também é do povo, que se acomoda e joga ou acumula lixo onde não deve. Mas, o pior não foi isso. Estava no meu canto, sofrendo calada como de costume e escrevendo linhas imaginárias na minha mente. De repente, comecei a ouvir gritos. De início, não dei atenção. Lógico, sempre havia alguém gritando, então pra que se incomodar? Era a rotina do hospital mesmo, né?! Pois bem, os gritos não paravam. Abri os meus olhos e lá estava ela: grande e poderosa, com suas anteninhas mexendo sem parar, diante de nós, pobres enfermos! Ela parecia sorrir. Um sorriso de vingança. Uma barata cascuda e voadora, enorme, prestes a se vingar de todos aqueles que mataram seus entes queridos. Entrei na onda e também comecei a gritar! Odeio baratas e não sei o motivo que Deus teve para criá-las, senão para nos torturar! Todos, em sua maioria mulheres, estavam fracos e abatidos pela doença, mas quando a dita cuja surgiu, algo divino aconteceu: os doentes, ao invés de andar, correram. Os que vomitavam sem parar, trataram de engolir o próprio vômito e fugiam para o lugar onde julgavam ser mais seguro. Eu, que estava com o corpo em brasa de tanta dor, também fugi, mas foi em vão. Ela olhou pra mim, como se me reconhecesse de algum lugar, mirou as anteninhas, esticou as asas e alcançou vôo até mim. Gritei e corri. Gritei e corri até não poder mais e, quando achei que ela havia ido embora por causa dos meus gritos, o pesadelo estava apenas começando: a desgraçada ficou presa no meu cabelo, que por uma infeliz coincidência, estava solto, em pé, duro como bombril! O desespero foi tão grande, que eu comecei a chorar e ver Jesus ao mesmo tempo, estava prestes a morrer... de pavor. Uma alma caridosa veio em meu auxílio e conseguiu tirá-la do meu cabelo. Só que a maldita saiu voando novamente, como que por milagre! Saí da enfermaria e fiquei no corredor com os outros até que alguém viesse exterminá-la. Um enfermeiro, negro, alto, com pinta de machão, mandou as pessoas se acalmarem (como se isso fosse possível) e entrou. Cinco segundos foram mais do que suficientes para ver que ele não era tão macho assim! Ele saiu correndo aos berros, como se fosse uma moça (o que na verdade, era mesmo!), e chamou uma das faxineiras do hospital. A faxineira, baixinha e gorda como eu, entrou na maior calma. Do lado de fora, ouvimos uma pancada seguida de um estalo: “clect”! A barata estava morta. Todos respiraram aliviados, mas só saíram depois que sua morte foi comprovada: Dona Cleide, a faxineira, exibiu a todos, como se fosse um troféu, o que sobrara daquele bicho nojento e infame que nos atacou.
- Vissi! Como essi povu é froxu! Cumedo dum bichim dessi?! Afimaria, ondi si viu? Eu te qui saí do meu seuviço pra módi matá barata?! Aaaaaaaaaafiii!
Voltamos para os nossos leitos, ainda com o temor de que outra aparecesse para se vingar daquela que morrera. Prendi minha juba, liguei pra casa e pedi pra que alguém viesse me buscar. No hospital de “César, o Maia”, eu não ficaria mais... Já não bastava estar com sua doença e ainda ter que aturar aquilo? Não, nem pensar. Vim embora. Fiquei um mês na cama, sofrendo, mas lá, eu não ficaria. Agora, uma perguntinha: Será que na casa do “César, o Maia” tem mosquito? E batata, será que tem?

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