
Eugênio. Eu-Gênio ! O chamavam de louco. Outros, de gênio. Variações sobre o mesmo tema... O louco Eu-Gênio, era homem, na síntese, humano. Sentia e se deixava levar pelos sentimentos. Não era... sentimentalóide, mas de um lirismo doído e cinza, como seus olhos, que matava a gente de tristeza (não era depressão, era tristeza mesmo !) só de olhar pra ele. Era santo, não santificado. Nem pelos homens, talvez (por Deus). Suas mãos mostravam ao mundo o seu mundo. Suas criações eram a expressão exata do milagre da vida ou da morte, já que nada durava mais de um dia. Ouvia aquela Voz e obedecia. "Ninguém pode saber, destrói tudo" - E o quadro era destruído, não importava se fosse o mais bonito ou se alguém gostasse. Estóico. Era inexplicável.
Não era mudo ou surdo, porém não falava (e parecia não ouvir) nada... A não ser á noite, enquanto dormia. Sempre sussurrava coisas sem sentido: "Hujshdu evm cdmgo, edwbxnq..." - E acordava envergonhado, polução-gozo-loucura, mente insana. Pintava telas e mais telas, tentando mostrar ou buscar não-sei-o-quê (poderia ser o sono) e quando terminava, rasgava tudo. Depois, fechava os olhos, entrava num transe-teso sem se tocar. Voltava a dormir. Ninguém o visitava. Não tinha amigos. Não trabalhava. Não se importava. Tinha o suficiente pra viver e pintar seus quadros, já que vinha de uma família abastada. Não tinha noção do tempo e isso o fazia se sentir preso. "Preciso sair... vou descolar um fumo, relaxar, talvez pegar uma puta..."; "Não, não posso. Me matariam se eu saísse. Preciso telefonar..." - Não tinha telefone, mas achava que tinha. Quando não o encontrava (óbvio), ia até o corredor do prédio (muitas vezes, sem ligar se estava vestido ou não) e olhava por entre as frestas das portas vizinhas, chamando baixinho pelo aparelho, como se fosse um gato perdido.
Quem se beneficiava com isso era Makida, uma neguinha assanhada, que morava em frente. Também era meio maluquinha, mas por fumar tanta erva. Quando estava doida, falava e ria sozinha. Ela sempre o ouvia chamar pelo telefone e achava graça. Espiava, sem que fosse notada, se ele estava nu e caso estivesse, lhe oferecia um baseado e logo em seguida, transavam. Uma transa muito louca, só deles.
Fumavam, nunca conversavam. Depois, ela tirava a roupa, colocava um monte de barbantes e sacos plásticos na cabeça, nas mãos, no pescoço e deitava no chão, dizendo que era a verdadeira Rainha de Sabá e que ele era seu Salomão. "Meu Salomão... eu sei teu segredo. Tu-é-um-fio-da-puta-muitu-ixpertu ! Tu fingi qui é doidu só pa mim cumê..." - Berrava a louca. Ele andava de um lado pro outro, sussurrando uma língua incompreensível "udorkstykl...", pintando quadros imaginários no ar. Ela se levantava e encostava na parede, como se fosse uma pintura feita por ele, que por sua vez, admirava. Estático. Se aproximava devagar, até suas mãos tocarem o sexo quente entre as coxas negras. Makida gemia baixinho. O louco observava aquelas carnes com profunda curiosidade (sexualmente latente). Abria-lhe as pernas, tirava a calcinha e cheirava, achava engraçado o cheiro de calcinha usada. Enfiava um ou dois dedos, separava os grandes lábios, cheirava novamente (aroma de buceta, afrodisíaco !) e por fim, metia a língua, a boca toda e disso, Makida gostava, tirando daí não só os primeiros orgasmos, mas também a conclusão definitiva de que ele não era louco... Apenas não tinha com quem trepar.
Ficavam horas se chupando. Ela não gostava muito... Ele sempre puxava seus cabelos carapinhas, fazendo vai-e-vem com sua cabeça, enfiando o pau goela abaixo até ela se engasgar. Depois disso, ele a vendava com as mãos e metia-lhe com toda força possível, metia-lhe ás estocadas e a nêga-fulô adorava, berrando, implorando por mais. Os olhos cinzentos, até então fechados, se abriam sérios e profundos, o rosto furioso e ele, gozando e metendo tanto e com tanta raiva, que parecia querer matar a neguinha ! Satisfeito (o pau ainda pingando), se trancava no quarto, até Makida se mandar. "Doidu-fio-duma-puta ! Vai-tomá-nu-mei-du-oi-du-teu-cú ! Nunca maix ti dô meu baseadu pa fumá, seu merrrrda !" - E era sempre assim e ela sempre voltava.
O Eu-Gênio, sabia que ela voltaria. Não era aquela previsão machista do tipo "ela-gosta-da-minha-foda", e sim porque a Voz sempre o avisava: "Ela vem depois, não se preocupe". Talvez, não soubesse, porém em seu subconsciente gostava da neguinha... Pelo menos, ela era a única pessoa que o visitava, seu contato com o mundo exterior.
Passava dias inteiros sem fazer absolutamente nada. Apenas o que gostava. Nos dias de verão, suas telas adquiriam um tom mais azulado ou esverdeado e as baratas, resultado do descuido com a limpeza, pareciam gostar mais desse tipo de quadro. No inverno, tons de vermelho ou púrpura e ele se sentia melhor... As baratas não apareciam tanto. Gostava delas fazendo cocégas nos seus pés ou dividindo a comida com ele. Achava engraçado o modo como elas andavam e suas anteninhas mexiam e á noite, quando todas elas se encontravam, pareciam estrelas cintilantes (?) na parede da cozinha. O único incômodo era quando a Voz o mandava destruir um quadro e elas, imploravam pra que ele não o fizesse. Mas, acabava fazendo e elas ficavam tristes, sem falar com ele durante dias. Se sentia dividido, deprimido, desolado, mas nada podia fazer.
Um dia desses, se sentiu assim, sem motivo. Ele não havia brigado com as baratas, a Voz não tinha aparecido, nada disso... Não se sabe o que deu nele, só que chorou bastante. Olhava as pessoas pela janela. Crianças passeando, velhos sentados na praça, mulheres com seus cachorros, casais se beijando... Todos pareciam tão felizes e aquela tarde parecia tão triste ! Desejou ser como eles, mas sabia que nunca seria. "Por que nasci assim ? Por que não sou feliz ? - Ele chorava.
Como que advinhando, Makida bateu na porta. Pela primeira vez, Eu-Gênio a recebeu com entusiasmo, pela primeira vez ele falou.
- Por favor, me ajuda ! Eu não quero mais ser maluco, eu quero ser feliz que nem os outros !
Ela não sabia o que dizer (também pela primeira vez !). Calada, Makida pegou a mão dele e a levou até seu ventre. "Tô prenha e tu é o pai..." Começou a chorar, enquanto ele parava.
Ficaram em silêncio por muito tempo. Achavam tudo muito confuso. Como isso pôde acontecer depois de várias transas ? Por que só agora ? As dúvidas pairavam no ar. Ele, ao mesmo tempo em que via a possibilidade de ser normal (e feliz), também se assustava com a idéia de que a criança poderia nascer louca.
- O que que a gente faz ?
- Tu, eu num sei... Eu tô cum medo. Tem muito fumo nu meu sangue e tu é doidu. Cumé qui esse muleque vai nascer ?
- Tem razão... E se nascer normal ? Quando ele crescer pode ser pintor que nem eu, maconheiro que nem você e talvez, um pouquinho doido que nem a gente !
- Num-tô-falanu ! Tu é porra-lôca. Fica-maginandu-monti-coisa... Tu nunca falô cumigo, nunca falô merda ninhuma ! E agora só fala merda ! Eu nunca pari não porra, fio é coisa séria !
- Eu sei... antes eu não tinha nada de importante pra falar e ficava quieto. Mas, agora é diferente.
- Tu só mi comi, num mi ama... num queru fio di homi qui só qué mi fudê, inda-maix doidu qui nem tu !
- E se a gente fingisse que se ama e que a gente podia ser uma família que nem as pessoas lá embaixo ? Eu compro um carrinho de bebê e um cãozinho. Eu levo o bebê e você leva o cãozinho e a gente pode tomar sorvete depois e tirar foto, aí a gente anda de mão dada e eu beijo você na boca ! Eu nunca beijei na boca...
- Eu também não... inda-maix boca di homi brancu qui nem tu ! - Riram como nunca haviam rido antes. E aquela tarde terminou perfeita !
A Voz sumiu, ele não falou mais coisas sem nexo, não rasgou nenhuma tela (aliás, vende todas) e pediu ás baratas que se mudassem (e elas concordaram, pasmem!). Ela agora é só Makida, que o chama de Eugênio (ou Geninho, quando goza) e aprendeu a falar direito. O filho deles se chama Beethoven porque ela gostou da "Sonata ao luar" e não é doido, é perfeitamente normal e muito inteligente. Makida e Eugênio ainda fumam maconha, mas transam bem baixinho pra não acordar o Beethoven.... E são muito felizes assim.
Ps: Eles (incrívelmente) acharam o telefone... As baratas o devolveram !

3 comentários:
Muito louca a história !lol
Boa história!
Conseguiu a Sibutramina?
Sim, consegui sim !
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